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Núcleo de Estudos da História da Música Luso-Brasileira CESEM


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Arquivo Paço Ducal de Vila Viçosa

Elenco provisório de espécies de música dramática e instrumental manuscrita até 1833

existentes no Paço Ducal de Vila Viçosa

David Cranmer

 

O texto e Elenco provisório que se seguem são fruto de trabalhos de vários tipos realizados no Arquivo Musical do Paço Ducal em Vila Viçosa ao longo de um quarto de um século, sobretudo nos últimos 10 anos. A descoberta, em 2007, de que uma parte significativa da música teatral manuscrita aqui conservada pertencia, a certa altura, à chamada “Ópera Nova”, teatro pertencente a Manuel Luiz Ferreira, no Rio de Janeiro, sendo alguns dos manuscritos provenientes originalmente de Portugal e outros do próprio Brasil (muito mais do que a mão cheia de obras de José Maurício Nunes Garcia e outros, já conhecidas), faz com que este Arquivo constitua um fundo de excepcional importância para a história da música luso-brasileira.

 

Para além da sua utilização para efeitos gerais, por qualquer investigador, o Elenco provisório destina-se especificamente a acompanhar dois artigos elaborados pelo presente autor sobre os manuscritos de música teatral luso-brasileira existentes neste acervo. O primeiro, “Ópera e música teatral no Rio de Janeiro no reinado de D. Maria I: uma fonte mal conhecida”, originalmente uma comunicação apresentada no Colóquio Internacional As músicas luso-brasileiras no final do Antigo Regime: repertórios, práticas e representações (realizado na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, de 7 a 9 de Junho de 2008), debruça-se sobre a descoberta dos manuscritos brasileiros, dando alguns exemplos das obras em causa. Está prevista a sua publicação nas actas do mesmo Colóquio. O segundo, “Os manuscritos de música teatral no Paço Ducal de Vila Viçosa – a ligação brasileira”, escrito um ano mais tarde, à luz de descobertas adicionais, bem como ao processo de elaboração do presente Elenco provisório, constitui um texto mais extenso e ponderado. Foi aceite para publicação no N.º 17 da revista cultural Callipole, editada anualmente pela Câmara Municipal de Vila Viçosa. Ambos estes textos se encontram actualmente no prelo, sendo a sua publicação prevista para finais de 2009.

 


Texto


Em 1989, o falecido cónego José Augusto Alegria, publicou Biblioteca do Palácio Real de Vila Viçosa: Catálogo dos Fundos Musicais, numa edição da Fundação Calouste Gulbenkian, permitindo pela primeira vez a divulgação das muitas e variadas riquezas deste acervo musical. O organizador do Catálogo, na sua Apresentação, salientou, contudo, algumas das limitações ao seu trabalho, devido a certos factores condicionantes. Em particular:

[...] Todo este material estava distribuído em lotes obedecendo a uma certa ordem impossível de alterar, dada a circunstância de ignorarmos o conteúdo respectivo. Tudo indicava que o trabalho a levar a cabo seria, não o de organizar, mas, sim, de inventariar as espécies consoante a colocação encontrada na diversidade das matérias.

 

Esta citação revela uma questão fundamental da qual o cónego Alegria tinha plena consciência: apesar de os lotes obedecerem a “uma certa ordem”, essa ordem estava longe do ideal, mas não sabendo de antemão o conteúdo de cada lote, era impossível substitui-la por uma arrumação mais coerente. Ou seja, a actual ordem, bastante sui generis na sua divisão em secções e por vezes algo arbitrário dentro das secções, deve-se não ao autor do Catálogo, mas antes à organização que encontrou.

 

De facto, tomando em consideração as dificuldades que teve de enfrentar, o cónego Alegria fez um trabalho sério e honesto. Nas secções do Catálogo dedicadas à música religiosa, onde a sua formação e experiência como presbítero lhe permitiu identificar (pelo menos em termos litúrgicos) as espécies em que carece de uma identificação explícita, foi possível realizar uma inventariação bastante razoável. No entanto, mesmo aqui, existiam cadernos e papéis soltos, separados do resto das obras a que pertenciam, que não chegou a identificar, resolvendo juntá-los em miscelâneas (ou, mais provavelmente, deixando-os mais ou menos como já se encontravam). Na secção B, “Música religiosa manuscrita”, na entrada para o Maço CXXV.6, lê-se: “Aqui se juntaram variados papéis que se destinavam ao órgão”. Para o Maço CXXVI consta: “Neste maço se deixaram juntos papéis e cadernos de instrumentos considerados perdidos das peças de que fizeram parte”; para o Maço CXXVII: “Neste maço ficaram papéis avulsos de baixos de acompanhamento e de baixos cifrados perdidos das composições a que pertenceram”; e para o Maço CXXVIII: “Neste maço se juntaram as partes soltas vocais”.

 

Contudo, o problema da separação de cadernos e papéis soltos na música religiosa em nada se compara com os problemas encontrados na secção G, “Música profana manuscrita didáctica e prática”, mais especificamente na parte prática. Aqui, podemos dividir os manuscritos em duas secções distintas: com algumas poucas excepções, desde o maço G prática 1 até G prática 91, o material é anterior às Guerras Liberais (1829-1834), e quase inteiramente de música teatral (óperas e música de cena); a partir do maço G prática 92, é posterior e mais diversificado em termos de género. No caso destes últimos, os manuscritos geralmente possuem uma indicação clara da sua identificação. Quanto aos restantes, o grau de identificação é bastante mais variável.

 

Em alguns destes maços, especialmente os que contêm partituras de óperas ou actos de óperas, constam o título e autor. No entanto, muitos outros são constituídos apenas por partes cavas vocais ou instrumentais. Nestes casos, a atribuição é rara. Mais problemático ainda, encontra-se uma proporção relativamente elevada em que a fonte carece de título para além de compositor. Face a estas dificuldades e não possuindo a mesma formação e experiência em relação à música profana, o cónego Alegria limitou-se a descrever, da melhor maneira que podia, as espécies que encontrou, atrevendo-se raramente a atribuir autores a obras sem atribuição e seguindo cega e invariavelmente as atribuições a lápis que encontrou (numa grafia do século XX), que estão quase sempre erradas. 

 

De uma forma bastante mais exacerbada do que na Secção B, na Secção G prática há problemas de separação de materiais pertencentes à mesma obra. Parece-nos que em grande parte é consequência da natureza intrínseca da música teatral e as condições de trabalho em que os teatros muitas vezes funcionavam. Não é difícil imaginar um leque de cenários que expliquem como terão ficado separados os muitos “bocados” (centenas senão milhares de partes vocais e instrumentais, constituídas por números distintos, nem sempre encadernados, com uma indicação da obra a que pertencem muitas vezes apenas na primeira página do primeiro número).

 

Como consequência destes factores, as entradas no Catálogo para a Secção G prática 1 a 91 variam entre a identificação integral de autor e título de partituras de óperas completas, e descrições, sem qualquer identificação em si, de números soltos que, em muitos casos, pertencem a obras com mais uma ou várias entradas no Catálogo, também identificadas ou não, conforme o caso. E visto que as entradas são apenas descrições das espécies em si, em isolamento, não há qualquer tentativa sistemática de articular os números e partes soltos pertencentes à mesma obra mas dispersos em vários maços separados.

 

Como resultado, o investigador que pede para consultar uma determinada espécie e que, ao consultá-la se depara com a falta de certos números ou partes, nem sonha que o que falta, ou pelo menos uma parte do que falta, pode encontrar-se num outro ou em vários outros maços. Se este problema se limitasse apenas aos maços G prática 1 a 91 (sendo especialmente notórias as miscelâneas G prática 84, 86, 88, 89, 90 e 91), já seria grave. No entanto, enquanto o cónego Alegria nos informou dos já referidos maços de papéis e cadernos soltos na Secção B, omitiu qualquer referência ao equivalente na Secção G – três maços gigantescos (G prática 117), por nós descobertos por azar, em Fevereiro de 2003, no decurso da microfilmagem do Arquivo Musical. A sua lenta arrumação, levado a cabo durante deslocações realizadas ao longo de 5 anos e meio, revelou neste maço material pertencente a mais de 120 obras distintas.

 

Resumindo, no que diz respeito ao repertório profano anterior a 1833 o Catálogo sofre de quatro graves deficiências:

  1. Uma elevada proporção dos maços está descrita mas não devidamente identificada;

  2. Várias atribuições tardias feitas a lápis nas partituras e partes cavas estão enganadas, mas foram incluídas, sem verificação, nas respectivas entradas;

  3. Faltam indicações das articulações entre materiais que, apesar de pertencentes à mesma obra, se encontram dispersas em vários maços.

  4. Não existe qualquer referência ao maço G prática 117 com as suas pelo menos 120 espécies.

 

Sendo assim, o Catálogo engana o investigador tanto quanto o apoia, tornando indispensável a sua substituição por uma ferramenta adequada, em conformidade com as normas científicas hoje em dia exigidas. Em particular, teria de identificar correctamente as espécies (sempre que possível), fornecendo igualmente uma descrição física de cada uma (número de volumes, dimensões, número de fólios, marcas de água, incipit musical, incipit de texto das árias, proveniência, datação indicada/estimada, etc.). Dado o problema da dispersão de materiais pertencentes à mesma obra, seria especialmente necessário explicitar as articulações entre eles, assim como entre volumes conservados no Paço Ducal e outros pertencentes à mesma fonte, que ficaram separados a certa altura, existindo hoje em dia em outras bibliotecas e arquivos, nomeadamente na Biblioteca da Ajuda ou no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

 

Na Primavera e Verão de 2008, ao preparar uma proposta para a elaboração de um novo catálogo com as referidas características, o presente autor elaborou um Elenco provisório das espécies de música dramática e instrumental até 1833, que corrige uma parte significativa das atribuições equivocadas, que inclui as obras no maço G prática 117, entretanto arrumado, e, sobretudo, que estabelece a articulação entre materiais dispersos pertencentes à mesma obra.

 

No mês de Agosto de 2008, a proposta de catálogo foi apresentada formalmente à Fundação da Casa de Bragança, à cuja instituição pertence o Paço Ducal de Vila Viçosa. Face às graves deficiências no actual catálogo, aqui relatadas, é de lamentar que a nossa proposta não foi aceite. Publica-se aqui, contudo, o Elenco provisório, que, na ausência de um catálogo apropriado e digno, facilitará as pesquisas de todos os investigadores que trabalham neste corpo de manuscritos musicais.

 

Agradecimentos e lamento

 

Agradecemos à Fundação da Casa de Bragança as autorizações de consulta do Arquivo Musical do Paço Ducal que permitiram a elaboração do presente Elenco provisório. Lamentamos a interdição à nossa consulta do Arquivo Musical, imposta pela Fundação desde meados de Agosto de 2008. 

 

Agradecemos ao Dr. João Ruas, Bibliotecário do Paço Ducal, a cortesia e disponibilidade que sempre mostrou nas nossas repetidas visitas, assim como aos funcionários que com ele trabalham.

 

David Cranmer

Lisboa, 30 de Outubro de 2009

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